Unknown

E  num momento você para. Para e me deixa de boca aberta, enxergando-me ao contrário, virada ao avesso sem entender o porquê. Suspiro e me recomponho. "Como assim?", penso. Suspiro novamente, cruzo as pernas pela fenda do vestido e você acompanha a linha tênue que nos separa de uma noite de perdição.
Um ultimo suspiro longo e um sorriso quase cínico demais passa a enfeitar o meu rosto enquanto você ri. Ri como uma criança, tão livre, tão suave, tão inocente. Pega minha mão sobre a mesa, um arrepio correndo todo o meu corpo enquanto aprecio o som de sua risada adentrando meu mundo.
Suspiro e novamente, me recomponho. Recolho minhas mãos, cruzando-as em frente ao meu rosto, apoiando o meu queixo ali.
Seu olhar de menino muda mais uma vez.
Você se ajeita na cadeira, ergue uma sobrancelha e fixa o olhar. E os seus olhos parecem me despir ao mais íntimo, me consomem, me enxergam abaixo de todos os tecidos, abaixo da pele, enxergam minha alma. E eu pareço tão despida que me dói, que me estremece.
Novamente você para, o sorriso volta a atingir o seu rosto tão sapeca quanto antes, forçando seus olhos amendoados a se fecharem no processo. E eu o acho adorável, ainda que não admita.
Um gota de vinho e os pratos são servidos.
Sorrio com delicadeza enquanto passo a degustar, com bom apetite, a beleza da refeição. E, numa risada rápida e suave, você balança a cabeça e passa toda a atenção igualmente ao seu prato, ao seu 'pato ao molho branco'. Novamente o vinho e descruzo as pernas.
Você suspira. Eu suspiro.
Cada colherada parecendo longa demais, cada olhar não retribuído, cada riscar de garfo no prato, toda aquela atenção que já não era minha. Respiro, limpo meus lábios com o guardanapo perfumado, vendo nele os resquícios do meu batom vermelho. Suspiro mais uma vez. "Tudo bem, você venceu."
E você me olha suavemente, largando os talheres, deixando a taça de vinho na mesa, e então me sorri como quem diz "Eu sabia."
O guardanapo volta aos meus lábios, e leva todo o meu batom. Os meus olhos anteriormente tão fixos, erguem-se suaves, quase brincalhões demais. Você assiste calado, enquanto eu resolvo despir as minhas faces e deixo escancarado pra você aquilo que desde o início você já sabia de cor. Suspiro quase constrangida, enquanto seus dedos tocam as minhas bochechas, colocam minha franja atrás da orelha e me trazem pra próximo de você.
E sem me recompor desta vez, eu me permito corar suavemente, já desejando que toda aquela distância terminasse. E você, no mesmo sorriso sapeca de sempre, me pergunta - "Pizza?" - e eu rio. Rio abertamente, arrancando o salto alto que há muito me machucava, desarrumando o penteado tão bem elaborado, soltando os cachos e por fim, no sorriso mais verdadeiro da noite, aceito seu convite.< E me lambuzo em você enquanto te apresento o meu verdadeiro eu.
Você venceu, você sempre venceria.
Você sempre soube a moleca crescida que eu era, e você amava exatamente essa moleca. Essa moleca não podia ficar em cima de um salto alto por mais de um minuto, aquele mundo alto não era seu... Mas de que adiantava admitir isso agora, afinal, você sempre soube.
Porque você sabia exatamente como me despir... 
Você sempre soube.